Teia Trófica em Foco investiga efeitos da piscicultura em reservatórios

Teia Trófica em Foco investiga efeitos da piscicultura em reservatórios

Por Luiz Filipe Gonçalves | Publicado em 06 de agosto de 2026

Para onde vai a ração que não é consumida pelos peixes criados em tanques-rede? Até que distância seus resíduos podem percorrer dentro de um reservatório? E como essa matéria orgânica interfere na alimentação e na abundância dos organismos aquáticos?

Responder a essas questões é importante para compreender como a produção aquícola influencia o funcionamento dos ecossistemas. Embora estudos anteriores já tenham identificado efeitos sobre peixes silvestres e outros componentes ambientais, ainda é necessário analisar essas alterações de forma integrada, acompanhando o caminho da ração por toda a teia trófica.

Com esse propósito, a Profa. Dra. Bruna Caroline Kotz Kliemann, da Faculdade de Engenharia Unesp – Câmpus de Ilha Solteira, coordena o projeto “Teia Trófica em Foco: Impactos de Pisciculturas em Tanques-Rede em Reservatórios Neotropicais”. A pesquisa pretende compreender a dimensão desses efeitos e produzir informações que contribuam para práticas aquícolas mais responsáveis e sustentáveis.

Financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a pesquisa reúne especialistas de instituições brasileiras e internacionais, e conta com a FUNDUNESP como interveniente. O estudo procura responder a uma pergunta central: qual é o efeito da produção de peixes em tanques-rede sobre a teia trófica (conjunto de relações alimentares e fluxo de energia entre os organismos de um ecossistema) nos reservatórios neotropicais?

A pesquisa dá continuidade aos estudos desenvolvidos pelo Laboratório de Ecologia de Peixes da Unesp de Ilha Solteira, coordenado pelo Prof. Dr. Igor Paiva Ramos. Trabalhos anteriores constataram que peixes silvestres são influenciados pela atividade aquícola e incorporam a ração utilizada nos cultivos à sua alimentação. Entretanto, muitos desses efeitos foram estudados separadamente.

“A necessidade de compreender a real magnitude desses impactos de maneira integrada, considerando seus efeitos sobre a estrutura e o funcionamento da teia trófica, constituiu a principal motivação para o desenvolvimento deste projeto”, explica Bruna Caroline.

Rastreando o caminho da ração

O projeto avaliará seis reservatórios localizados nos rios Paraná, Grande e Paranapanema, na Bacia do Alto Paraná. Em cada reservatório, os pesquisadores selecionarão dois pontos: um próximo a uma piscicultura em tanques-rede e outro em uma área de controle, sem influência direta da atividade. Ao todo, serão 12 pontos de amostragem.

As coletas serão trimestrais, durante 15 meses, contemplando os diferentes períodos sazonais e uma etapa piloto. Serão analisados peixes, fitoplâncton, zooplâncton, macroinvertebrados, macrófitas, sedimentos e outros componentes do ambiente aquático

Para acompanhar o destino da ração, os pesquisadores utilizarão análises de conteúdo estomacal e de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio. Como a ração possui uma assinatura isotópica específica, será possível compará-la às assinaturas encontradas nos organismos e identificar se esse alimento foi consumido e assimilado, direta ou indiretamente, por diferentes integrantes da teia trófica.

O estudo também empregará o modelo ecológico Ecopath, utilizado para representar os fluxos de matéria e energia no ecossistema. A partir dos dados coletados, a equipe poderá simular como a teia trófica responderia ao aumento ou à redução da produção aquícola.

Outro diferencial será o uso de filmagens subaquáticas com isca, conhecidas pela sigla BRUV. A metodologia permitirá estimar a abundância e a biomassa das populações de peixes que se concentram nas proximidades dos tanques-rede sem depender apenas dos métodos tradicionais de captura.

Embora sejam coletadas informações ambientais, o foco principal não será avaliar diretamente a qualidade da água, mas identificar o caminho percorrido pela ração, a extensão espacial de sua influência e seus possíveis efeitos sobre os organismos aquáticos. Como resultado complementar, a pesquisa poderá revelar alterações na abundância e na riqueza das espécies.

Rede de Pesquisa

O projeto reúne pesquisadores com diferentes especialidades. Participam a Dra. Cibele Diogo Pagliarini e o Prof. Dr. Igor Paiva, da Unesp de Ilha Solteira; Dra. Débora Reis de Carvalho, da Universidade de Lancaster, no Reino Unido; Profa. Me. Erika Mayumi Shimabukuro, do Instituto de Biociências da Unesp – Câmpus de Botucatu; Dr. José Amorim dos Reis Filho, da Universidade Federal da Bahia; Dr. Juan Antonio Balbuena Díaz-Pinés, da Universidade de Valência, na Espanha; Dra. Lidiane Francheschini, Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp – Câmpus de São José do Rio Preto; e o consultor em aquicultura Luiz Marques da Silva Ayroza.

Também integram a equipe a Profa. Dra. Mayara Pereira Neves, da Universidade Federal do Paraná; Prof. Dr. Gilmar Perbiche Neves, Profa. Dra. Marcela Bianchessi da Cunha Santino e o Prof. Dr. Irineu Bianchini Junior, da Universidade Federal de São Carlos; Prof. Dr. Ronaldo Angelini, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); Profa. Dra. Rosilene Luciana Delariva, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná; e a Profa. Visitante Thais Garcia da Silva, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).

Os pesquisadores participarão das coletas, das análises do material biológico e dos dados, além da produção e divulgação dos resultados científicos.

Contribuição para uma piscicultura sustentável 

Entre os resultados esperados estão a identificação da influência da ração sobre diferentes níveis da teia trófica, a delimitação da área alcançada por seus efeitos e a simulação de cenários com diferentes volumes de produção. Os dados poderão orientar práticas de manejo, auxiliar produtores e subsidiar políticas públicas relacionadas à aquicultura e à conservação ambiental.

A pesquisa também formará um banco de dados sobre a biodiversidade dos reservatórios, com informações sobre fitoplâncton, zooplâncton, algas, macrófitas e macroinvertebrados aquáticos. Além da publicação científica, a equipe pretende compartilhar o conhecimento produzido com piscicultores e outros setores interessados.

“Ao quantificar o caminho da ração e dos resíduos por meio da teia trófica, esperamos fornecer dados inéditos sobre a escala e natureza da influência da piscicultura em tanques-rede sobre o ecossistema aquático”, afirma a coordenadora.

O projeto está alinhado ao ODS 2 – Fome Zero e Agricultura Sustentável e ao ODS 14 – Vida na Água, da Organização das Nações Unidas (ONU). Ao aproximar a produção de alimentos, ciência e conservação dos ecossistemas aquáticos, a pesquisa busca contribuir para uma piscicultura que concilie produtividade e respeito ao meio ambiente.

Siga nossas redes sociais: @fundunesp